Representante especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi afirma que espera que este seja o primeiro passo para pôr fim ao “sofrimento indescritível” do povo sírio.

Uma menina síria refugiada segura seu irmão bebê na frente da barraca em que estão abrigados no campo de refugiados de Domiz, perto de Dohuk, na região do Curdistão no Iraque. Foto: ACNUR/B. Sokol
Os delegados sírios do governo e da oposição finalizaram nesta sexta-feira (31) o que funcionários das Nações Unidas esperam que seja apenas a primeira etapa de negociações para acabar com a guerra civil no país, com o principal mediador relatando que não ocorreu nenhum avanço para pôr fim ao “sofrimento indescritível” do povo sírio, incluindo o acesso à ajuda humanitária.
“Nós não temos nenhum progresso do qual possamos falar”, disse o representante especial conjunto da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi, em entrevista coletiva em Genebra, local dos oito dias de negociações. Ele observou que a oposição concordou em retornar para mais uma sessão no dia 10 de fevereiro, mas que a delegação do governo disse que precisava verificar novamente com Damasco primeiro.
“Não há absolutamente nenhuma dúvida de que as posições-chave estão ainda muito afastadas”, disse ele sobre as negociações. Esta é a primeira vez que os representantes do governo e da oposição se reúnem para discutir a proposta promovida pela ONU para ajudar a acabar com quase três anos de guerra civil.
Desde março de 2011, mais de 100 mil pessoas foram mortas e cerca de 9 milhões de outras expulsas de suas casas, quando o conflito irrompeu entre o presidente Bashar al-Assad e vários grupos que buscam tirá-lo do poder.
A base das negociações é a plena implementação de um plano de ação adotado no chamado Comunicado de Genebra de 2012, a primeira conferência internacional sobre o conflito, que apela para um governo de transição rumo a eleições livres e justas.
No entanto, sobre o acesso a ajuda humanitária para 1,6 milhão de sírios, alguns dos quais sitiados por quase dois anos sem o abastecimento regular de alimentos, Brahimi afirmou que não ocorreu praticamente nenhum progresso.
“Alguma notícia boa veio ontem (30), com a entrega de assistência humanitária ao acampamento de Yarmouk para os refugiados palestinos (perto de Damasco), mas muito mais é necessário”, disse ele, ressaltando que a ONU vai continuar as discussões humanitárias com o governador de Homs e as autoridades de Damasco.

Representante especial conjunto da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi (segundo à esquerda), chega para entrevista coletiva. Foto: ONU/Jean-Marc Ferré
A apenas 12 quilômetros de distância, os caminhões da ONU estão de prontidão para entregar alimentos e medicamentos urgentemente necessários para 500 famílias, cerca de 2.500 pessoas, presas na Cidade Velha de Homs, sem ajuda há quase dois anos, uma vez que as partes em conflito permitam o acesso.
No total, por conta da insegurança, cerca de 1,6 milhão de civis na Síria estão sem acesso regular à ajuda humanitária do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA) por meses.
Em um comunicado que leu antes de responder as perguntas dos jornalistas, Brahimi disse que queria falar “quase apenas sobre os poucos elementos positivos, porque nós queremos olhar para as próximas etapas”.
“E eu sinceramente acho que existem alguns elementos que podem ser, que podem oferecer um começo, e um terreno para se basear, se houver vontade política para buscar uma solução”, acrescentou ele, lembrando que este foi um início muito modesto.
“Foi uma partida muito difícil. Mas os lados se acostumaram a sentar-se na mesma sala. Eles têm apresentado posições e escutaram um ao outro. Houve momentos em que um lado reconheceu inclusive as preocupações, as dificuldades e o ponto de vista do outro lado. O progresso é muito lento, de fato, mas os lados se envolveram em uma maneira aceitável. Este é um começo muito modesto, mas é um começo sobre o qual podemos trabalhar.”