O chefe do ACNUR, António Guterres, pediu uma mudança no método de financiamento, afirmando que as novas crises ultrapassam a capacidade de resposta do sistema humanitário.

‘A comunidade humanitária está se esforçando para responder, mas a cada nova crise fica claro que o sistema está chegando ao seu limite’, disse António Guterres. Foto: ACNUR Síria
“O sistema humanitário global atingiu o seu limite ao lidar com o aumento disparado do número de deslocados devido aos conflitos e perseguições em todo o mundo”, alertou nesta quarta-feira (05) o chefe do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), António Guterres, estimulando a comunidade internacional a “pensar em alternativas” quanto ao financiamento da resposta emergencial.
Em uma entrevista ao Terceiro Comitê da Assembleia Geral, que lida com as questões sociais, humanitárias e culturais, Guterres disse que no final de 2013 o número de deslocados chegou aos 51 milhões. No entanto, a multiplicação dos conflitos em 2014, em combinação com os efeitos negativos das mudanças climáticas, o aumento populacional, a urbanização, a fome e a falta de água possivelmente elevarão essa cifra.
“Os acontecimentos recentes indicam que estes números vão ser ainda maiores em dezembro deste ano. A comunidade humanitária está se esforçando para responder, mas a cada nova crise fica claro que o sistema está chegando ao seu limite”, frisou.
Guterres mandou um recado dizendo que é necessário dar um basta àqueles “que desencadeiam e prolongam conflitos, deixando a bagunça para os órgãos humanitários limparem” e que a prevenção dos conflitos é a maneira mais eficiente de solucionar a questão humanitária.
“A prevenção e a resolução de conflitos deve ser sempre conduzida pelos países afetados, embora muitas vezes eles necessitem do apoio internacional, principalmente na mediação e na estabilização”, explicou.“Isso vai muito além da esfera da ação humanitária e, essencialmente, se resume a uma questão de vontade política internacional para combater as causas profundas do deslocamento”, conclui
Novas medidas de financiamento
Segundo o alto comissário da ONU, embora as doações tenham aumentado, as necessidades ultrapassaram essas contribuições, levando o sistema financeiro humanitário à beira da falência.
Para resolver o déficit, Guterres anunciou que já foram tomadas algumas medidas, como o reforço nas parcerias com doadores emergentes e a ampliação de oportunidades no setor privado, buscando novas alternativas de financiamento humanitário e de desenvolvimento.
“Também é de extrema importância pensar em alternativas, ser mais criativo quando se trata de financiamento de uma causa urgente”, disse. A ideia é que, no futuro, as ações humanitárias sejam financiadas parcialmente por contribuições fixas rateadas. Tal ação poderia minimizar a lacuna entre as necessidades e os recursos disponíveis na resposta humanitária, complementou o chefe do ACNUR.
Sob a liderança do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), um estudo foi convocado para explorar como este novo método de financiamento pode funcionar.
Atualmente, o orçamento total de ajuda humanitária alcança apenas 10% do montante disponível à cooperação de desenvolvimento. No entanto, esse financiamento não pode ser desembolsado tão rapidamente e muitas vezes os atores humanitários são obrigados a usar seus recursos para suprir as necessidades estruturais, levando o sistema a “arcar com gastos que realmente não deveria”, concluiu o chefe do ACNUR.