“As partes em conflito na Síria estão se afundando cada vez mais. Mulheres e crianças, idosos, feridos e doentes, pessoas com deficiência estão sendo usadas como moeda de troca e bucha de canhão dia após dia, semana após semana, mês após mês”, disse Zeid Ra’ad Al Hussein. Em Genebra, ONU mantém seus esforços para que as partes negociem uma saída política.

Refugiado sírio, Shadi estava vivendo com uma família de acolhimento no norte do Líbano e havia retornado para a Síria para visitar sua família. Ao usar uma passagem de fronteira não oficial, foi ferido durante uma explosão (imagem de 2012). Foto: UNICEF/Kate Brooks
O chefe das Nações Unidas para os direitos humanos manifestou nesta quinta-feira (11) “extremo alarme” com a situação dos direitos humanos na Síria, que segundo ele se encontra em “rápida deterioração”.
“Violações chocantes e abusos são cometidos diariamente”, disse Zeid Ra’ad Al Hussein, alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, se referindo à situação na cidade de Aleppo e em outras partes do país. “Condeno estes atos horrendos de forma inequívoca”, acrescentou Zeid, por meio de um comunicado.
“As partes em conflito na Síria estão se afundando cada vez mais, aparentemente sem se importar nem um pouco com a morte e a destruição que eles estão levando a todo o país. Mulheres e crianças, idosos, feridos e doentes, pessoas com deficiência estão sendo usadas como moeda de troca e bucha de canhão dia após dia, semana após semana, mês após mês. É uma situação grotesca”, alertou.
“Desde que a última ofensiva promovida pelas forças do governo começou na semana passada em Aleppo, segundo relatos acompanhada por numerosos ataques aéreos de aviões russos e sírios, cerca de 51 mil civis foram deslocados e outros 300 mil estão em risco de ficarem sitiados”, disse Zeid, acrescentando que dezenas de civis teriam sido mortos desde o dia 1o de fevereiro.
Segundo o representante da ONU, o Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH) também recebeu inúmeros relatos de destruição de infraestrutura civil, incluindo pelo menos três clínicas e duas padarias, desde o lançamento desta última rodada de hostilidades.
Condições humanitárias ‘desastrosas’ em toda a Síria
O chefe de direitos humanos também ressaltou que centenas de milhares de civis em outras partes da Síria também estão enfrentando condições humanitárias “desastrosas”, especialmente aqueles sob cercos impostos tanto por forças do governo e grupos armados afiliados, quanto por por grupos armados de oposição – incluindo o ISIL.
“Em Moaddamiyat al-Sham, Madaya, Deir ez-Zour, Fuah e Kafreya, pessoas estão em uma situação totalmente desesperada, com muitas mortes, inclusive de crianças jovens, como resultado da desnutrição grave e da falta de acesso a cuidados médicos”, disse.
Em Moaddamiyat al-Sham, cidade que fica a poucos quilômetros da capital Damasco, desde que as forças do governo estabeleceram um cerco completo em dezembro, cerca de 35 mil civis sofrem com os bombardeios e ataques aéreos intensos, passando por uma dramática deterioração das suas condições de vida. Os preços dos alimentos subiram bruscamente, e faltam alimentos básicos para bebês.
Enquanto alguns alimentos foram entregues no lado leste da cidade, que é pró-governo, pelo menos seis civis – incluindo cinco crianças – morreram como resultado direto da desnutrição, em janeiro, e mais de 25 crianças com idade inferior a dois anos estão sofrendo de desnutrição e problemas de saúde relacionados.
Em Madaya, pelo menos 26 pessoas morreram de desnutrição desde o início do ano, apesar da chegada de um grande comboio humanitário nos dias 11 e 14 de janeiro, e pelo menos 300 pessoas – incluindo mulheres e crianças – estão em necessidade de evacuação imediata.
Cerca de 200 mil pessoas que vivem sob um cerco imposto pelo ISIL em Deir ez-Zour estão enfrentando escassez de água e uma total falta de eletricidade. Os relatórios indicam que várias pessoas acusadas de tentar levar alimentos de forma “clandestina” para a cidade teriam sido executadas por combatentes do ISIL.
Apesar da entrega de ajuda humanitária para as aldeias de Fuah e Kafreya, também nos dias em 11 e 14 de janeiro, o ACNUDH relata que a situação continua difícil, com cerca de 20 mil civis permanecendo sob cerco pelos grupos armados de oposição Ahrar al-Sham e al-Nusra Front, que emitiram ameaças de que assassinariam os moradores em retaliação a ações do governo contra áreas sob seu controle.
Em Genebra, lembrou o alto comissário, a ONU mantém seus esforços para que as partes negociem uma saída política. Zeid destacou que todas as partes em conflito têm obrigações no âmbito do direito internacional humanitário e não devem colocar a população civil em perigo ao se abrigarem entre ela, ou em estruturas protegidas, tais como escolas e hospitais.
“As conversações de paz em Genebra devem ser retomadas o mais cedo possível”, insistiu Zeid. “É inconcebível que as diversas partes não consigam sequer se sentar ao redor da mesa, quando, por causa de suas ações, mais de um quarto de milhão de pessoas morreram, e o resto da população está sofrendo desta forma. A resolução pacífica duradoura desta guerra terrível deve ser construída sobre uma base sólida de direitos humanos.”