Em mais de seis meses do pior surto de ebola na República Democrática do Congo, a doença foi responsável pela morte de mais de 500 pessoas nas províncias de Kivu do Norte e Ituri, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mais de 250 pessoas infectadas se recuperaram da doença, que ataca o sistema imunológico, causando hemorragias internas e danos aos órgãos, se não for controlada.
Esta é a história de Jémima Masika, uma das sobreviventes. O relato é do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Jémima Masika foi infectada pelo vírus ebola e sobreviveu. Foto: UNFPA RDC/Brigitte Kiaku
Antes de Jémima Masika, de 26 anos, perder seus pais para o ebola, em agosto do ano passado, ela pensava que o vírus mortal era um mito – e então ela mesma ficou doente.
“Eu não acreditava na existência do ebola”, disse. “Como muitos, eu achava que a doença era uma história criada pelos políticos”.
O ebola não é novidade na República Democrática do Congo. Este é o décimo surto do vírus no país – mas a primeira vez em que a província densamente povoada de Kivu do Norte, uma zona ativa de conflito, é afetada.
Masika contraiu a doença quando cuidava de sua tia adoecida.
“Eu estava ajudando minha tia, ela estava vomitando muito. Tive que limpar muitas vezes. Então, depois, comecei a me sentir mal. Eu tinha os mesmos sintomas que ela”, explicou.
Quando o ebola atinge uma zona de conflito
O surto começou em agosto, atingindo as províncias de Kivu do Norte e Ituri. Mais de 800 casos foram identificados e mais de 500 pessoas morreram.
Mulheres e meninas, tradicionalmente cuidadoras dos doentes, enfrentam um risco elevado de exposição. De acordo com relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o surto, 58% dos casos de ebola ocorreram em pessoas do sexo feminino.
O impacto do ebola se espalha para além das pessoas infectadas.
Sistemas de saúde fatigados deixaram muitas pessoas sem acesso a serviços vitais, incluindo assistência de saúde sexual e reprodutiva.
O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) tem trabalhado com parceiros para prevenir a propagação do vírus e para ajudar a garantir que serviços de saúde sexual e reprodutiva permaneçam disponíveis. Em setembro, o UNFPA doou 10 toneladas de equipamentos médicos para 20 postos de saúde em Beni, o suficiente para ajudar 31 mil pessoas por seis meses.
Entre os materiais, constavam itens para permitir que mulheres dessem à luz sem risco de contrair a doença. O UNFPA também ajuda parteiras a tomar precauções quando cuidam de mães e recém-nascidos.
Mas esforços para responder ao surto foram prejudicados pela instabilidade na região, que colocou equipes humanitárias em risco significativo.
A desconfiança da comunidade também tem sido um problema. Para responder a isso, o UNFPA está divulgando nas comunidades informações sobre o vírus.
“Estamos entregando uma resposta abrangente à epidemia do ebola, que inclui divulgação para dar às comunidades as informações essenciais sobre prevenção e controle da doença”, disse Sennen Hounton, representante do UNFPA no país.
Longo caminho para recuperação
“Contaram-nos sobre o ebola e sobre o que fazer se você sentir certos sintomas. Então, por precaução, fui ao centro de tratamento”, lembrou Masika.
Ela foi rapidamente diagnosticada com ebola e internada para tratamento. “Fiquei com muito medo de morrer e ser colocada em um saco para transportar cadáveres, como meus pais”, disse.
Masika ficou de cama por um mês. “Enfermeiras e médicos estavam lutando para salvar minha vida”.
Finalmente, ela se recuperou.
Poucos esperavam que ela fosse conseguir. “Descobri que minha família havia dado todos os meus pertences; eles achavam que eu não ia me recuperar”, disse.
Ao receber alta, Masika recebeu um kit do UNFPA com itens essenciais de higiene. A higiene desempenha um papel crítico na prevenção da propagação do vírus.
“Me comprometi a ajudar os outros e sensibilizá-los sobre como seguir as regras de higiene, especialmente lavando as mãos para se proteger da doença”, afirmou Masika.
Vacinas, motocicletas e futebol
Mais de 77 mil pessoas foram alcançadas em uma campanha de vacinação em massa desde agosto. O UNFPA forneceu suprimentos, incluindo 10 mil seringas.
O UNFPA também ajudou a fortalecer serviços de água, saneamento e higiene nas áreas afetadas e forneceu mais de 50 motocicletas, assim como um software para apoiar rastreamento de contato – o monitoramento de pessoas que estiveram em contato com pessoas infectadas.
A agência também patrocinou um torneio de futebol, atividades teatrais e uma marcha com mais de 1 mil estudantes. Todas as atividades apoiaram a campanha de conscientização do Ministério da Saúde da República Democrática do Congo, denominada “Ebola: Em Casa Não”.