‘Sua desumanidade é clara, suas ideologias falidas’, diz secretário-geral da ONU sobre terroristas

Na Turquia, onde participa da cúpula do G20, Ban Ki-moon lembrou que o terrorismo é uma ameaça para toda a humanidade. “Como temos visto ao longo dos anos com regularidade desagradável, nenhum país, nenhuma cidade e ninguém está imune”, disse. Apenas nos últimos quatro dias, atentados terroristas deixaram dezenas de pessoas mortas e feridas em Paris, em Beirute e em Bagdá. ONU apresentará plano de ação global para prevenir a radicalização violenta.

Crianças refugiadas no campo de Bahirka, próximo a Erbil, no norte do Iraque. O país é um dos mais afetados pela ação de grupos terroristas como o ISIL. Foto: Missão de Assistência da ONU no Iraque (UNAMI)

Crianças refugiadas no campo de Bahirka, próximo a Erbil, no norte do Iraque. O país é um dos mais afetados pela ação de grupos terroristas como o ISIL. Foto: Missão de Assistência da ONU no Iraque (UNAMI)

Durante a reunião neste domingo (15) do G20 — fórum internacional das 20 maiores economias do mundo — na Turquia, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, comentou os recorrentes atentados terroristas que vêm ocorrendo pelo mundo. O último, em Paris, deixou pelo menos 120 mortos e centenas de feridos. Pouco antes, atentados em Beirute e Bagdá também deixaram dezenas de mortos e feridos.

“Deixe-me começar por reiterar as minhas profundas condolências ao povo da França na sequência dos bárbaros ataques terroristas em Paris na sexta-feira [13] à noite. Meus pensamentos estão com as famílias das vítimas neste momento de dor e perda”, disse Ban Ki-moon durante uma coletiva de imprensa na Turquia.

Os terroristas, acrescentou Ban, continuam a cometer “atos atrozes” em todo o mundo. “Sua desumanidade é clara; suas ideologias estão falidas. Nenhuma reivindicação ou causa pode justificar tal violência. Aqueles que alegam estar agindo em nome da religião estão apenas prejudicando a sua religião”, disse ele.

Ban lembrou que o terrorismo é uma ameaça para toda a humanidade. “Como temos visto ao longo dos anos com regularidade desagradável, nenhum país, nenhuma cidade e ninguém está imune”, disse o chefe da ONU, lembrando que, apenas nos últimos quatro dias, atentados terroristas “hediondos” também deixaram dezenas de pessoas mortas e feridas em Beirute e Bagdá.

“É de partir o coração ver tantas famílias, comunidades e sociedades endurecidas ou deixadas em ruínas. É trágico ver tantas pessoas — em grande parte homens jovens — tão radicalizados a ponto de estarem dispostos a perder suas vidas em espasmos de violência sem sentido”, disse Ban Ki-moon.

Ele informou que o encontro do qual participa também discutirá o terrorismo. “Vou destacar aos líderes mundiais que nossa resposta precisa ser robusta, mas sempre dentro do Estado de Direito e com o respeito aos direitos humanos. Caso contrário, vamos espalhar ainda mais o fogo que estamos tentando apagar”, disse Ban.

O secretário-geral da ONU lembrou a importância de abordar as causas subjacentes do extremismo violento. Ele informou aos jornalistas que apresentará em breve aos Estados-membros das Nações Unidas um plano de ação global para prevenir uma radicalização violenta.

Neste momento de aumento das tensões, Ban disse se preocupar com as ações que “só perpetuam o ciclo de ódio e violência”.

O chefe da ONU argumentou que, no passado, os terroristas vinham agindo agindo em sigilo. Não havia tanta informação como agora, disse, quando grupos como o ISIL ou o Da’esh passaram a ter uma “estratégia de comunicação muito ativa”, disse Ban. “Eles têm espaço, têm seus próprios recursos para financiamento: isso é muito alarmante”, destacou o secretário-geral.

“É por isso que tenho pedido e instando os líderes mundiais a se unir. Como eles se comportam e operam de modo muito calibrado, deve haver uma resposta muito mais coordenada e concertada por parte da comunidade internacional”, disse Ban.

Ban Ki-moon informou que as Nações Unidas estão ativamente envolvidas com todos os países que foram afetados por estes ataques terroristas. Isso é importante, acrescentou, para que a estratégia das Nações Unidas mais seja mais ampla.

Em 2006, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Estratégia Global Antiterrorismo, incluindo uma ação de contraterrorismo que vem atuando no Conselho de Segurança da ONU. “Mas, depois de todos estes anos e tendo experimentado estes enormes e brutais ataques terroristas, temos de pensar de forma diferente”, enfatizou.

“É por isso que tenho contatado ativamente muitos países no mundo, antes de tudo para tentar reforçar as capacidades imediatas dos países — como podemos trazer padronizar estas capacidades e como podemos ter alguns esforços coordenados por parte da comunidade internacional. Isso é o que eu vou apresentar à Assembleia Geral em breve”, concluiu Ban.

Conselho de Segurança e situação na Síria em questão

Questionado por um jornalista após as mudanças exigidas por muitos países no Conselho de Segurança da ONU para uma resposta mais efetiva ao terrorismo e à guerra na Síria, Ban Ki-moon lembrou que os Estados-membros têm discutido e negociado a questão ao longo de 20 anos.

“Parece-me que há uma opinião quase unânime de que o Conselho de Segurança deve ser reformado para se tornar mais democrático, mais transparente, mais responsável e mais representativo. Nesse ponto, acho que não há pontos de vista diferentes”, disse Ban.

Conselho de Segurança mais democrático, transparente, responsável e representativo é 'opinião quase unânime', disse Ban Ki-moon. Foto: ONU

Conselho de Segurança mais democrático, transparente, responsável e representativo é ‘opinião quase unânime’, disse Ban Ki-moon. Foto: ONU

“Como mudar os métodos de trabalho do Conselho de Segurança, incluindo o poder de veto? Sobre isso, você vai encontrar um número de diferentes pontos de vista, de muitos países. Tem sido dada atenção à agenda da reforma do Conselho de Segurança e agora estamos vendo algumas acelerações”, disse o chefe da ONU, acrescentando que a divisão que existe no órgão que trata da paz e segurança internacionais “tem afetado a resolução da situação síria”.

Ainda sobre a Síria, Ban disse estar “muito encorajado” com o fato de que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e outros grandes atores da região, como a Turquia, a Arábia Saudita e o Irã, tenham sentados juntos pela segunda vez em Viena.

“Eu acho que eles fizeram um bom acordo que precisa ser implementado o mais rapidamente possível. A formação de um governo de transição dentro de seis meses, uma transição em seis meses e eleições em 18 meses, o que dá cerca de dois anos, é um acordo bastante ambicioso, encorajador”, disse ele.

Para tornar isso possível, completou Ban Ki-moon, deve haver um cessar-fogo em todo o país. O enviado especial da ONU para a situação no país, Staffan de Mistura, tem trabalhado em estreita colaboração com as diferentes partes, informou Ban, para estabelecer um cessar-fogo em todo o país, por toda a Síria, para que ocorra a transição conforme determina o Comunicado de Genebra de junho de 2012.

“Pode ser um prazo ambicioso, mas não há nada que não possamos fazer quando estamos unidos. Eu tenho instando os membros do Conselho de Segurança, em particular seus cinco membros permanentes, a mostrar solidariedade e flexibilidade”, acrescentou.

De acordo com Ban, as Nações Unidas receberam o mandato por este grupo de 20 países de promover este diálogo em curso e uma eventual transição. Caso venham a ocorrer, as eleições na Síria deverão ser monitoradas também pela ONU. “Vamos fazer nosso melhor nesse processo”, completou Ban Ki-moon.

G20 e Conferência do Clima

A cúpula do G20 acontece neste domingo e segunda-feira, 15 e 16 de novembro, em Antália, na Turquia. Ban destacou que o encontro acontece próximo ao final de um ano que ele considera um “divisor de águas” para a cooperação internacional.

“Os governos concordaram uma nova e visionária agenda de desenvolvimento sustentável, com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o ano de 2030. Esses objetivos podem definir a direção para um mundo próspero, inclusivo e ambientalmente sustentável. Eles devem ser uma prioridade nesta Cúpula”, disse Ban.

Além disso, governos de todo o mundo se reunirão em menos duas semanas em Paris para finalizar um acordo sobre a mudança climática, na chamada COP21, a Conferência da ONU sobre o tema. Segundo Ban Ki-moon, 161 países, representando mais de 90% das emissões globais, já apresentaram suas propostas para o tema. “Estes planos vão dobrar a curva de emissões para baixo e nos mover na direção certa”, disse Ban Ki-moon.