A carioca Gabryelle Passos engravidou aos 15 por um descuido com a pílula anticoncepcional. Hoje aos 18, percebe que a gravidez precoce tem se naturalizado no ambiente escolar.
Segundo especialistas, o fenômeno afeta principalmente adolescentes e pré-adolescentes mais pobres, que muitas vezes não têm acesso a serviços de saúde reprodutiva. Outras engravidam voluntariamente por não ter perspectivas de um futuro que vá além da maternidade.

Gabryelle Passos ficou quase um ano fora da escola depois de ter engravidado. Foto: UNIC Rio/Pedro Andrade
A carioca Gabryelle Passos engravidou aos 15 anos e demorou meses para contar aos amigos de escola que estava grávida, com medo de ser ridicularizada. Usava roupas largas para disfarçar, mas, um dia, o inevitável aconteceu: levou uma bolada na barriga durante um jogo de futebol e começou a gritar: “para, para, que eu estou grávida!”.
Inicialmente, os colegas não acreditaram e começaram a rir. Mas logo se convenceram quando ela levantou a camiseta. “Eles passaram a ter mais cuidado comigo. Se não fosse por isso, eu não teria falado nada, porque tinha vergonha. Eu era do primeiro ano”, contou.
Agora aos 18, Gabryelle não vê a mesma reação entre suas amigas de colégio, nem entre as mais novas. “Hoje em dia, tem muita menina grávida na escola. Elas acham que é uma coisa normal ter filho com 15 anos. Eu não achava isso, eu achava que tinha perdido a minha vida”.
Mesmo sem ter “perdido a vida” e amando sua filha Heloísa Helena, de quase 2 anos, Gabryelle reconhece que a gravidez foi um atraso para seus projetos: queria já estar na faculdade e continuado a dançar balé, sua paixão.
Expulsa de casa pela mãe quando engravidou, teve que morar com a família do namorado, Anderson, seis anos mais velho. No final da gestação, pediu para voltar, pois enfrentava fortes dores e precisava da ajuda materna. Mora até hoje com a mãe no Meier, zona norte do Rio de Janeiro, enquanto o namorado continua vivendo com o pai.
“Foi um susto, eu ia abortar, porque não tinha condições de ter uma criança, iria atrapalhar minha vida pessoal e na arte. Mas quando descobri, já estava com cinco meses”, disse, lembrando que raramente tomava pílula anticoncepcional no dia certo.
Para cuidar do bebê, Gabryelle teve direito a seis meses de licença-maternidade pela escola. Após esse período, não conseguiu vaga para a filha em uma creche pública perto de casa e teve que entrar com uma ação na Justiça. Conseguiu um lugar somente em outubro, quando já estava quase um ano sem ir às aulas. Repetiu o segundo ano por excesso de faltas.
Hoje, além de ir à escola, ela faz um curso remunerado em uma clínica da prefeitura, onde recebe menos de um salário-mínimo. Conta com a ajuda da mãe e do pai da criança, que trabalha em dois empregos e só consegue ver o bebê nos fins de semana.
Gabryelle diz se sentir pressionada para ser uma mãe perfeita, enquanto sente que as pessoas só se preocupam com as necessidades da criança, ignorando as dela. Também enfrentou dificuldades com o preconceito de pessoas que a responsabilizavam pela gravidez. “O mesmo julgamento não aconteceu com o Anderson”, desabafou.
Além das pressões externas, Gabryelle também enfrenta as próprias cobranças. Diz que Anderson é um pai melhor do que ela é mãe, mesmo sabendo que o pai passa muito menos tempo com a criança. “Eu não tenho tanta paciência”.
“Ainda sou muito nova. Tem coisas que eu quero que saiam da minha cabeça, mas não saem assim tão fácil. Tipo, sexta-feira, quero sair com as minhas amigas. E não posso”, disse. “Eu prezo muito pela minha liberdade. E ter uma filha não é isso.”
Apesar das dificuldades, ela vê um lado positivo da maternidade: a responsabilidade. Afirma que agora consegue dar conselhos para as amigas, pede que elas se cuidem, tomem pílula anticoncepcional, e as lembra que a maternidade não é tão fácil para uma adolescente.
Por enquanto, não pensa em se casar, por considerar que já está difícil o suficiente criar uma criança, quanto mais “comandar uma casa”. “Ainda existe isso de a mulher cuidar da casa, e não o homem”.
Para o futuro de Heloísa, ela quer uma escola de qualidade e, quem sabe, colocá-la no balé. Para si própria, pretende voltar a dançar, terminar o ensino médio e fazer faculdade. “Quero continuar fazendo as coisas que eu fazia antes”, declarou. “E mais pra frente, quando ela estiver maior, morar sozinha com ela ou com o pai dela também”.
“Eu quero dar para minha filha tudo o que a minha mãe quis dar para mim e não conseguiu”, concluiu.
Gravidez precoce preocupa especialistas
As gestações entre pré-adolescentes de até 15 anos permaneceram praticamente estáveis na última década no Brasil. Por outro lado, a natalidade entre mulheres acima desta idade caiu consideravelmente no mesmo período. Esta diferença tem preocupado especialistas (leia aqui a reportagem completa).
A natalidade total teve uma queda de 11% entre 2003 e 2014, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, enquanto os nascimentos entre meninas de 15 a 19 anos recuaram 23% no mesmo período, entre aquelas com até 15 anos a baixa foi de apenas 5% — mantendo participação estável em relação aos nascimentos totais.
Para especialistas, o cenário é preocupante na medida em que o corpo das pré-adolescentes ainda está em formação. A gravidez precoce prejudica tanto o desenvolvimento físico, como psicológico e social, uma vez que a maior parte delas precisa parar de estudar para ter o bebê — muitas vezes sem o apoio do pai da criança.
Jaime Nadal, representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil, lembra que o fenômeno afeta principalmente adolescentes e pré-adolescentes mais pobres, que muitas vezes não têm acesso a serviços de saúde reprodutiva. Outras engravidam voluntariamente por não ter perspectivas de um futuro que vá além da maternidade.
Assista abaixo ao vídeo com o depoimento de Gabryelle: