Ban Ki-moon ofereceu mediador para promover o diálogo, segundo a chefe da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay. Ela também ofereceu “todo o conhecimento, habilidades e ferramentas” de seu escritório.

Foto: Jordi Bernabeu Farrús / Flickr.com/jordibernabeu
Com pelo menos 75 mortes confirmadas na Ucrânia, principalmente em Kiev, as Nações Unidas alertaram mais uma vez às autoridades no país para exercer contenção em meio ao impasse e aos confrontos entre o governo e os manifestantes.
“Eu continuo a apelar fortemente a todos os envolvidos para que cessem a violência e para as autoridades ucranianas para que se abstenham do uso excessivo da força”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a repórteres na sede da ONU em Nova York nesta quinta-feira (20).
“Estou chocado com o uso de armas de fogo tanto pela polícia quanto pelos manifestantes”, destacou Ban, que tem estado em contato com o presidente Viktor Yanukovytch. “Peço a todas as partes para retomar imediatamente um diálogo genuíno.”
Ban Ki-moon se ofereceu para enviar um mediador para promover o diálogo, disse a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, que disse à Rádio ONU que ela também ofereceu “todo o conhecimento, habilidades e ferramentas” de seu escritório para ajudar.
“Eu acho que a situação é grave e merece atenção imediata para restaurar a paz”, disse ela.

Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e a chefe de direitos humanos da Organização, Navi Pillay. Foto: ONU/E. Debebe/E. Schneider (fotos de arquivo)
A principal funcionária da ONU em matéria de direitos humanos disse que reconhece os desafios que o governo está enfrentando, incluindo a violência dos manifestantes, resultando na morte de um policial, com pelo menos outros 70 feridos.
“Por outro lado, 47 jornalistas foram feridos e todas as evidências apontam a responsabilidade dos agentes da lei”, disse Pillay.
A situação permanece fluida em Kiev e outras cidades onde há relatos de protestos. “Às vezes é difícil a obtenção de investigações imparciais das partes envolvidas”, afirmou Navi Pillay.
Ela pediu às autoridades para investigar casos de mortes, desaparecimentos e violações de direitos humanos, bem como colocar os direitos humanos no centro de todas as soluções.
“Eu ainda não estou pedindo uma investigação independente, mas eu estou oferecendo ajuda às autoridades na Ucrânia para uma investigação imparcial, chamando a atenção para as normas estabelecidas pela comunidade internacional para o que constitui um [investigação] imparcial”, observou ela.
Preocupação por violência contra crianças e jornalistas
Também na quinta-feira, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) registrou crescente preocupação com o impacto da violência sobre as crianças ucranianas e suas famílias. “Há relatos de crianças que estão sendo capturadas e até mesmo feridas na violência em Kiev [capital do país]”, afirma o comunicado da agência da ONU.
“O UNICEF está buscando informações para confirmar esses relatos e está acompanhando de perto a situação uma vez que ela afeta as crianças”, acrescenta a nota. “Todas as partes envolvidas têm a responsabilidade de manter as crianças fora de perigo.”
Já a UNESCO condenou a morte do jornalista ucraniano Vyacheslav Veremyi e pediu que a segurança de todos os profissionais de mídia no país seja garantida.
Correspondente para o jornal ucraniano Vesti, Veremyi foi arrastado para fora de um táxi e baleado por sujeitos não identificados no dia 18 de fevereiro. Ele morreu no hospital no dia seguinte.
No mesmo dia, mais de 30 profissionais de mídia foram feridos em incidentes violentos pelo país e, ao longo da semana, dezenas de pessoas – entre elas, jornalistas, policiais e manifestantes – foram mortas na capital.
‘Violência e mortes são totalmente inaceitáveis’, alertam especialistas da ONU
Nesta sexta-feira (21), representantes do maior grupo de peritos independentes do sistema de direitos humanos da ONU pediram o fim imediato dos novos confrontos na capital da Ucrânia, Kiev, e em outras partes do país.
“Estamos horrorizados com o que vem acontecendo em Kiev”, disse Chaloka Beyani, que atualmente dirige o Comitê de Coordenação dos especialistas internacionais nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU.
“Nós condenamos fortemente o uso excessivo da força pelas forças de segurança contra os manifestantes. Instamos contenção e uma investigação urgente, independente e minuciosa da ação das forças.”
“Pedimos ainda às autoridades para esclarecer sobre os vários casos de desaparecimentos forçados de manifestantes desde o final de novembro de 2013”, disse Beyani. “Da mesma forma, nós condenamos os ataques repetidos aos profissionais de mídia por parte das forças de segurança, e instamos as forças de respeitar e facilitar o seu trabalho.”
O grupo de peritos internacionais de direitos humanos destacou que os responsáveis por ordenar e perpetrar execuções arbitrárias, desaparecimentos forçados, atos de tortura e outras violações de direitos humanos são responsáveis por suas ações no âmbito do direito nacional e internacional.

Manifestação no dia 24 de novembro de 2013 em Kiev, com a presença de mais de 100 mil pessoas. Foto: Ivan Bandura / Flickr.com/mac_ivan
“Nós também condenamos a violência perpetrada por alguns manifestantes e pedimos que renunciem à violência”, acrescentou Beyani, exortando as forças de segurança a diferenciar entre manifestantes pacíficos e elementos violentos. “O respeito ao direito à liberdade de reunião pacífica, tal como garantido pelo direito internacional dos direitos humanos, é absolutamente essencial”, ressaltou.
Os especialistas pediram que o governo ucraniano e a oposição retomem o “diálogo significativo” para pôr fim à terrível situação dos direitos humanos. “A violência deve parar agora”, disseram.
“Dada a sua experiência em uma ampla gama de questões de direitos humanos, os nossos peritos independentes continuarão a acompanhar de perto a situação e tomar as providências, se necessário”, observou Beyani.
“Eles estão prontos a apoiar quaisquer iniciativas para assegurar a proteção dos direitos humanos e se envolver de forma construtiva com todas as partes. Em linha com o convite permanente estendido pela Ucrânia a procedimentos especiais, apelamos ao governo para facilitar a sua visita ao país”, acrescentou o especialista.
“Congratulamo-nos com os esforços da comunidade internacional para ajudar todas as partes a encontrar uma solução duradoura para a crise. Nenhum esforço deve ser poupado para restabelecer um clima onde os direitos humanos são totalmente protegidos e apelamos a todas as partes que assumam as suas responsabilidades a esse respeito”, concluiu Beyani.