Ucranianos com deficiência superam desafios após conflitos de 2014

Entre os 2 milhões de pessoas deslocadas pelos conflitos de 2014 na Ucrânia, 66 mil eram indivíduos vivendo com algum tipo de deficiência. Quase três anos após o início das hostilidades, esses ucranianos encontram soluções criativas para lidar com os desafios trazidos pela migração forçada.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Os ucranianos Vlada e Alexandr sabem o que são tempos difíceis. Eles estão entre as 66 mil pessoas com deficiência que escaparam do conflito no leste do seu país de origem em 2014, ao lado de outros 2 milhões de pessoas.

Vlada, de 15 anos, tem espinha bífida, uma condição adquirida desde o nascimento que impede o desenvolvimento adequado da medula espinhal. Com mais de 60 anos, Alexandr perdeu uma perna há cerca de uma década por causa de uma doença. Ambos usam cadeira de rodas.

A dupla descobriu maneiras criativas para lidar com suas respectivas deficiências. Vlada aprendeu sozinha a falar inglês e a tocar piano. Alexandr dança em sua cadeira de rodas e também usa o tempo para se dedicar ao tricô, seu passatempo favorito.

Eles vivem no mesmo corredor de um antigo sanatório da era soviética, na cidade de Sviatohirsk, perto da demarcação que separa o território de Donbas das áreas controladas pelo governo de Kiev. A dupla e suas famílias deixaram o leste da Ucrânia por causa dos conflitos.

“Aprendi inglês porque quero conhecer o mundo”, diz Vlada. “Foi muito difícil, mas era meu sonho”, acrescenta a jovem. Alexandr diz que sente vontade de dançar sempre que ouve uma música de que gosta. “O clima me invade e eu começo com um movimento”, afirma. “Está no meu sangue, a música faz eu esquecer de tudo.”

Vlada continua a correr atrás de seu sonho com a ajuda de Sasha, uma colega de 15 anos. Elas se conheceram quando suas famílias deslocadas foram alojadas em outro sanatório, em Odesa.

“Certa manhã, eu estava entediada”, lembra Vlada. “Eu disse, ‘Sasha, vamos passear na rua?’. Ela respondeu: ‘Sim, claro’.”

Agora, elas são inseparáveis. Sasha ajuda Vlada a se vestir e a empurra durante os longos passeios que fazem ao redor do sanatório. Em troca, Vlada toca piano para Sasha e tenta ensiná-la a fazer pássaros de origami.

“Com ela, me sinto feliz”, diz Sasha. “Não me sinto como se estivesse lidando com uma pessoa com deficiência.”

Alexandr passa grande parte dos seus dias com novelos e agulhas. Ele diz que acalma os nervos. Foi sua avó que lhe ensinou a prática do tricô e ele lembra que começou a costurar fazendo meias. Hoje, o ucraniano produz suéteres, cachecóis e até pequenos tapetes de lã que ele doa ou vende. Sua técnica é usar roupas de lã descartadas que ele ou outras pessoas encontram e desfazer o tricô. Depois, ele aproveita o fio para criar algo novo, muitas vezes usando duas ou três fios diferentes em combinações coloridas.

“Meu pai costumava pintar quadros”, diz. “Eles eram muito bonitos e eu acho que essas coisas que eu faço também são bonitas.”

Para a maioria das 191 pessoas alojadas no sanatório — tanto os residentes com deficiência, quanto seus cuidadores —, a vida muitas vezes se resume em esperar, mas Vlada e Alexandr decidiram ocupar os dias com trabalho e novos desafios.

Apesar do otimismo, Vlada não deixa de expressar sua frustração por não frequentar a escola local que fica a vários quilômetros de distância. Ao contrário do colégio que ela frequentava em Luhansk, antes do conflito, a instituição não possui instalações com acessibilidade para estudantes com deficiência.

Atualmente, os professores vão ao quarto de Vlada e ela aprende sozinha, enquanto sua amiga Sasha vai ao centro de ensino, onde tem a oportunidade de conviver com outras pessoas.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) planeja fornecer materiais para a construção de rampas que permitam a Vlada assistir às aulas na escola. Contudo, sem ajuda estrangeira, os planos da adolescente podem não se concretizar.