“O sequestro de mais de 200 meninas em Chibok é apenas uma das tragédias sem fim sendo replicadas em uma escala épica em toda a Nigéria e a região”, disse o diretor regional do UNICEF para a África Oriental e Central, Manuel Fontaine, durante o lançamento do relatório ‘Infância Perdida’.

Hassan Adamo permanece com o resto dos seus familiares em um campo de deslocados na Nigéria. Ele segura uma foto de sua filha mais velha, de 18 anos, e seu filho de 6 anos, ambos sequestrados por membros do Boko Haram durante um ataque ao seu povoado. Foto: UNICEF/Rich
Ao menos 800 mil crianças foram forçadas a abandonar seus lares como resultado do conflito no nordeste da Nigéria entre o Boko Haram, forças militares e grupos de autodefesa. Esta revelação aparece no novo relatório publicado nesta segunda-feira (13) pelo Fundo da ONU para a Infância (UNICEF).
Publicado um ano depois do sequestro de 200 alunas em Chibok, o documento chamado Missing Childhood — ou Infância Perdida — indica que o número de crianças que foge para preservar suas vidas na Nigéria ou cruza a fronteira para o Chade, Níger e Camarões mais que dobrou em menos de um ano.
“O sequestro de mais de 200 meninas em Chibok é apenas uma das tragédias sem fim sendo replicadas em uma escala épica em toda a Nigéria e a região”, disse o diretor regional do UNICEF para a África Ocidental e Central, Manuel Fontaine. “Um número grande de meninos e meninas desapareceram na Nigéria – sequestrados, recrutados por grupos armados, atacados, usados como armas ou forçados a fugir da violência. Eles têm o direito de recuperar suas infâncias.”
Além de serem expostos a morte, mutilação e deslocamento, as crianças são usadas nas filas do Boko Haram como combatentes, cozinheiros, carregadores e vigilantes, descreve o relatório. Jovens e meninas são submetidas ao casamento ou trabalho forçado e ao estupro. Escolas, professores e estudantes também têm sido alvo de ataque, com mais de 300 escolas danificadas ou destruídas e ao menos 196 professores e 314 estudantes assassinados até o final de 2014.
A fim de aliviar as consequências dessa situação, o UNICEF oferece apoio psicossocial e aconselhamento a 60 mil crianças afetadas para ajudá-los a minimizar a dor, reduzir o estresse e lidar com o sofrimento emocional. A agência também prove água potável e kits de saúde, além de estabelecer espaços temporários para a continuidade do ensino.
Para manter esses serviços, o UNICEF pede à comunidade internacional para complementar as doações de 26,5 milhões necessárias para esta causa.
Além do lançamento do relatório, o UNICEF usa a rede social Snapchat para chamar a atenção para o sofrimento dessas crianças. Através da hashtag #bringbackourchildhood, a agência divulgará trabalhos artísticos que ilustram o dia a dia de milhares de crianças que perderam a sua infância na Nigéria, Chade, Níger e Camarões como consequência do conflito.
Os desenhos refletem o que as crianças sentem falta de suas casas e as feridas emocionais e o sofrimentos que elas aguentaram, incluindo ver seus pais e irmãos ser assassinados, torturados ou sequestrados.