A escalada da violência em Gaza e Israel ameaça todas as crianças com danos físicos devastadores, além de angústia mental e efeitos que podem durar a vida toda, como a sensação de insegurança.
A escalada da violência em Gaza e Israel ameaça todas as crianças com danos físicos devastadores, além de angústia mental e efeitos que podem durar a vida toda, como a sensação de insegurança.

Kinan de 5 anos foi um dos feridos durante um ataque aéreo israelense. Foto: UNICEF/El Baba
Noureldin e seu primo Kinan, duas crianças de 5 anos de idade, agora estão deitadas no leito do Hospital Al-Shifa na cidade de Gaza. Ambos foram gravemente feridos por estilhaços após um ataque aéreo ter atingido a casa da sua família esta semana.
Sua mãe tinha acabado de colocá-lo para dormir com seu primo, quando um míssil atingiu a casa, causando a morte dos seus pais – supostamente um militante – e o pai, a irmã e a avó de Kinan. No total, seis membros da família, com idades entre 21 a 62 anos, foram mortos e cinco ficaram gravemente feridos.
“Cheios de pacientes”
Noureldin teve que se submeter a uma cirurgia abdominal. Além disso, um pedaço de estilhaço ainda continua alojado em sua cabeça. Kinan tem estilhaços em suas mãos e uma das pernas está fraturada.
“Eles estão acordados, mas nenhum dos dois disseram uma palavra desde o ataque aéreo”, diz a avó de Noureldin, acrescentando que não sabe como contar para garotos que seus pais estão mortos.
À medida que as crianças descansam, o fluxo de mortos e feridos aumentam nas unidades de cuidados intensivos que chegam juntos com parentes muito preocupados.
“A unidade está tão cheia de pacientes que os médicos tratam algumas pessoas no chão ou liberam alguns feridos mais cedo para casa, incluindo as crianças, devido à falta de leitos hospitalares”, disse o especialista em saúde do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em Gaza, Younis Awadallah. “Isso os colocam em risco”, acrescentou.
A escalada da violência em Gaza e Israel ameaça todas as crianças com danos físicos devastadores, além de angústia mental e efeitos que podem durar a vida toda, como a sensação de insegurança.
Entre 8 e 13 de julho, pelo menos 35 crianças palestinas entre 1 e 17 anos foram mortas em ataques aéreos em Gaza, e pelo menos 296 ficaram feridas.
A região está bloqueada territorialmente, o que torna difícil a fuga dos civis. Entretanto, em Israel, os ataques com foguetes a partir de Gaza ameaçam também a vida de crianças israelenses.
“Ele sabia o que ia acontecer”
Com nove anos de idade, Mohammed Jaber se lembra de como ele colocou o seu dinheiro no bolso e saiu para a rua com sua irmã de cinco anos, Ghina, como um longo dia de verão com o fim do jejum no mês do Ramadã.
“Meus pais tentaram me manter dentro de casa, mas eu estava entediado, por isso fomos comprar balinhas e chips”, disse ele. Uma vez na rua, no denso e povoado campo de refugiados de al-Bureij, Jaber ouviu que os vizinhos tinham recebido um aviso de chamada de um ataque aéreo. Foi aí que ele ele correu de volta para casa. Como não há abrigos em Gaza, seus pais e seus seis filhos se esconderam em um quarto.
“Mohammed lembra da última guerra, há dois anos. Ele sabia o que ia acontecer”, disse sua mãe, Mariam explicando que como a criança assustada e com medo correu e pegou um travesseiro para cobrir seu rosto e orelhas. “Eu pensei que ele ia se sufocar”, disse ela.
De repente, a explosão ensurdecedora enviou pedaços de estilhaços de vidro que voaram por todo o quarto. “Todos os meus filhos começaram a gritar. Consegui acalmá-los, mas depois que eles entraram em estado de choque, eles não conseguiam falar nada.”
“Desde então, Mohammed começou a urinar na cama de novo e minha filha de 5 anos de idade, Ghina, continua perguntando: ‘Mamãe, as pessoas vão bombardear nossa casa?’ Sempre que o pai sai, Ghina se apega a ele. Ela acha que ele não vai voltar, se ela deixá-lo ir.”
Mariam não sabe o que dizer a seus filhos pequenos. “Eu não posso dizer-lhes a verdade, que não há nenhum lugar seguro e que não podemos ir embora.”
Alcançando as famílias em casa e no hospital
Para ajudar as crianças e os pais a lidar com o medo, a ansiedade e o estresse, cinco equipes psicossociais de emergência apoiadas pelo UNICEF começaram a visitar casas e hospitais.
Operado pelo Centro Palestino para a Democracia e Resolução de Conflitos (PCDCR), parceiro da UNICEF desde 2002, eles fornecem primeiros socorros psicossociais.
“Essas equipes estavam no terreno a partir do segundo dia da escalada, muitas vezes em condições perigosas”, diz o diretor de Proteção à Criança do UNICEF em Gaza, Safa Nasr.
Esta semana, quatro conselheiros visitaram 12 crianças cuja casa foi danificada em um ataque aéreo em Rafah. Assim que eles se sentaram com as crianças, um telefonema avisou que a casa estava prestes a ser alvo de novo dos bombeiros. Então todos fugiram minutos antes de um segundo ataque aéreo.
Desde o início das hostilidades, as equipes já realizaram 262 visitas, chegando a 302 crianças, e muitos mais visitas estão por vir.