Oferecimento de refeições, conscientização sobre direitos em campos de espera e distribuições de alimentos para os que tentam atravessar a fronteira são algumas das atividades desenvolvidas por voluntários húngaros que querem que refugiados se sintam acolhidos em seu país.

O assistente social Andras Rakos conversa com um solicitante de refúgio sobre seus documentos de residência em um abrigo de Budapeste. Foto: ACNUR / Bela Szandelszky
As cozinhas da universidade John Wesley Theological, em Budapeste, ressoam com o barulho das panelas e a preparação de alimentos. Voluntários húngaros estão cozinhando refeições não apenas para os alunos. Os desabrigados e os refugiados que vivem na capital também foram convidados a ocupar um lugar à mesa.
“Hoje teremos feijão e macarrão”, conta Andras Rakos, um pós-graduando da faculdade, que treina ministros metodistas e assistentes sociais como ele. “Nós tentamos ter um menu e variá-lo, mas se alguém doa uma enorme quantidade de batatas, simplesmente temos que usá-las”, explica.
Segundo Rakos, refugiados e desabrigados húngaros foram acomodados separadamente, embora dividam as mesmas instalações médicas quando necessário. “É verdade que os problemas dos refugiados e dos desabrigados podem se sobrepor”, disse. “Se eles estão doentes, então todo mundo fica doente junto.”
Os húngaros estão ajudando em diversas frentes as vítimas de deslocamento forçado que chegaram ao seu país. O governo apoiou o “não” em um referendo do início de outubro para aprovar a definição de cotas para o recebimento de refugiados na União Europeia. Embora as autoridades tenham convencido a maioria dos que votaram, a participação foi inferior aos 50% necessários para que a votação fosse considerada válida.
Lembranças de guerras passadas
O escritor Janos Boris lembra da crise interna que levou à fuga de milhares de conterrâneos para outros Estados nos anos 1950. Filho de um sobrevivente do Holocausto, o autor testemunhou, aos 12 anos, a revolução húngara que foi reprimida pelas forças soviéticas em 1956.
Boris se lembra vividamente do pânico da população e de como os vizinhos fizeram as malas e se juntaram a um grupo de 300 mil refugiados para deixar a Hungria enquanto as fronteiras ainda estavam abertas.
“Era exatamente como hoje”, lembra. “Havia traficantes de pessoas e você podia negociar. Eles diziam quando o caminhão iria chegar e você só podia levar consigo uma mala.”
O escritor ficou em Budapeste porque seu pai era um radiologista que temia não ser capaz de continuar na profissão se fosse para o exterior. A atual crise de deslocamento forçado tem comovido o autor. “Estou absolutamente certo de que quando as pessoas estão correndo perigo de vida, quando deixam para trás tudo que já tiveram ou amaram para escapar com vida, então é hora de ajudar”, afirma.
Voluntariado
Alguns húngaros têm ajudado refugiados de forma voluntária, como faz o grupo MigSzol Szeged — em português, “Solidariedade com Migrantes” — da cidade de Szeged. O coletivo busca dar visibilidade a casos de detenção de solicitantes de refúgio, além de visitar campos abertos para dar informações aos refugiados sobre seus direitos.

Mussa Idria fugiu da Eritrea para se estabelecer na Alemanha. Como não conseguiu permanecer no país, retornou à Hungria, onde atualmente tem proteção legal. Foto: ACNUR / Bela Szandelszky
Mussa Kilam, oriundo da Eritreia, agora possui proteção legal na Hungria. Ele ganha a vida como intérprete e é voluntário do grupo. Seu objetivo inicial era se estabelecer na Alemanha, mas depois de ser deportado de lá, acabou retornando à Hungria, onde teve de se esforçar para encontrar trabalho e alojamento e aprender o idioma.
O refugiado explica que, uma vez que os deslocados forçados conseguem pôr em ordem seus documentos e se tornam capazes de deixar os campos para buscar outros centros de atendimento, um novo problema surge: o risco da falta de moradia. O grupo MigSzol fez um vídeo sobre o tema, mostrando as dificuldades de Mussa em encontrar um apartamento.
Doações para os que não conseguem cruzar a fronteira
Em sua pequena sala, Gabor Ivanyi, diretor da faculdade e presidente da Irmandade Húngaro-Evangélica, reflete sobre as tentativas de seus voluntários de entregar comida aos refugiados na fronteira húngara durante o verão passado.
“Parece que driblamos as autoridades”, disse. “Alguns oficiais ameaçaram nos algemar. A situação variou durante os dias. Dependia da atitude da polícia e do exército.”

Pastor Gabor Ivanyi joga tênis de mesa com jovens que frequentam instituto da universidade John Wesley Theological. Foto: ACNUR / Bela Szandelszky
Ivanyi chamou atenção da opinião pública da Hungria por sua luta com as autoridades para ser autorizado a instalar banheiros químicos doados perto da zona de trânsito na fronteira. O docente explica que muitas famílias de refugiados têm de satisfazer necessidades do organismo ao ar livre, em meio a arbustos e em regiões que são constantemente patrulhadas por forças de segurança. Sanitários acabaram sendo instalados no lado sérvio da fronteira.
O dirigente da faculdade já é um senhor e um membro de longa data da igreja. Ele não se vangloria, mas vídeos mostram-no limpando o lixo na fronteira, sem medo de arregaçar as mangas e trabalhar ao lado dos mais jovens.
“Me faria triste o fato de ter tido a possibilidade de ajudar, mas não tê-lo feito para poupar minha saúde”, diz. “Acredito que, todas as manhãs, nos é dada a quantidade de força necessária para levantar e para terminar o dia com decência.”