Segundo a agência da ONU, vacina só deve ficar pronta após 1ª onda “explosiva” de infecções chegar ao fim; ausência de imunização preocupa a OMS, que confirmou a transmissão sexual do vírus zika. Epidemia terá “consequências severas de saúde pública” para o mundo, devido a associações com microcefalia e outras síndromes neurológicas. Plano de reposta global da OMS recebeu apenas 3 milhões dos 56 milhões de dólares solicitados aos países.

Atualmente, mais de 30 companhias pesquisam testes para detectar o vírus zika. Técnicas diagnósticas são consideradas ‘uma prioridade urgente’ por especialistas, segundo a OMS. Foto: IOC / Fiocruz / Gutemberg Brito
A transmissão sexual do vírus zika foi confirmada nesta terça-feira (22) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que alertou para as “severas consequências de saúde pública”, caso a doença se espalhe para além da América Latina e do Caribe. O zika já havia sido encontrado no sêmen de homens infectados.
Em coletiva de imprensa, a agência da ONU ressaltou que o desenvolvimento de uma vacina para o vírus foi considerado “imperativo” por especialistas, mas muitos pesquisadores acreditam que a imunização só ficará pronta para ser disponibilizada ao público provavelmente após a primeira onda explosiva de infecções pelo zika chegar ao fim.
“Quanto mais conhecemos (o vírus), pior as coisas ficam”, disse a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, durante a coletiva.
Uma das atividades da OMS é estimular e acelerar as pesquisas sobre tratamentos e testes diagnósticos para doenças como a zika. Apesar da urgência da situação, a Organização não está recebendo um apoio financeiro dos Estados-membros compatível com a gravidade da crise.
Chan lamentou que o orçamento solicitado para a resposta global da agência e de parceiros ao zika tenha recebido apenas 3 milhões de dólares, dos 56 milhões solicitados. Desse montante, 25 milhões serão utilizados para financiar iniciativas da Organização e de seu escritório regional nas Américas (OPAS).
Acesse a transcrição da coletiva de imprensa da chefe da OMS em inglês clicando aqui e aqui em português. O áudio está disponível abaixo ou clicando aqui.
“Não podemos deixar o dinheiro se tornar uma barreira ao que é certo de se fazer para a saúde pública”, destacou Chan ao ser questionada por repórteres quanto à falta de recursos. “Se o dinheiro continuar faltando, não sei por quanto tempo poderemos continuar assim.”
Atualmente, 14 desenvolvedores de vacinas estão trabalhando em 23 projetos para desenvolver métodos de imunização. Pesquisas estão sendo realizadas nos Estados Unidos, no Brasil, na França, na Índia e na Áustria.
Riscos envolvidos na epidemia foram agravados pela associação da zika com a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré. “A associação com a Guillain-Barré e outros distúrbios severos expandiu o grupo de risco para além das mulheres em idade fértil”, afirmou a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, durante a coletiva.
Um padrão epidemiológico já foi identificado por cientistas que calculam que, três semanas após a identificação inicial da circulação do vírus zika, é provável a ocorrência elevada de casos da Guillain-Barré.
Nos Estados Unidos, na Itália e na França, pessoas foram localmente infectadas pelo zika. Devido à ausência do mosquito Aedes aegypti nas áreas onde ocorreram as infecções, a principal suspeita acerca da transmissão recai sobre relações sexuais sem proteção com indivíduos que contraíram a doença anteriormente, em países com populações do inseto vetor.
A OMS anunciou que, das cinco novas ferramentas pesquisadas para controlar a disseminação do Aedes aegypti, nenhuma ainda foi considerada adequada para implementação em larga escala. Entre as novas técnicas, estão a utilização de mosquitos geneticamente modificados e o uso de agentes microbióticos para conter o inseto.
Países devem se preparar para aumento no número de casos de microcefalia e Guillain-Barré
Chan informou que não há como saber se, uma vez disseminado para outros países, o vírus provocará o mesmo padrão de aumento no número de casos de malformações congênitas e distúrbios neurológicos.
No entanto, já há um crescente consenso científico sobre os vínculos entre a microcefalia e o zika e os Estados não devem esperar por uma “comprovação definitiva” para preparar respostas de saúde pública, alertou a chefe da OMS.
Surtos da malformação congênita foram verificados no Brasil – onde autoridades já estabeleceram uma relação causal entre os casos recentes do distúrbio e a epidemia de zika – e ocorrências também foram registradas no Panamá e na Colômbia.
O governo colombiano ainda não informou à OMS oficialmente acerca dos casos da malformação encontrados no país.
Casos de microcefalia em outros países afetados pelo zika ainda não foram verificados, mas a ausência de ocorrências pode estar conectada à demora natural para que a malformação seja diagnostica. A síndrome só é detectada após o fim da gravidez.
Além da microcefalia, a Guillain-Barré também é motivo para preocupações, uma vez que 12 países já relataram casos da síndrome possivelmente associados a infecções pelo zika.
Milhões serão infectados pelo zika, mas projeções para casos de microcefalia e Guillain-Barré ainda são incertas
A expectativa da OMS é de que milhões de pessoas no mundo serão infectadas pelo zika. O vírus circula por 38 países, segundo dados da agência.
Embora o alcance extenso da epidemia seja certo, ainda é difícil estimar quantos casos da doença levarão a ocorrências de microcefalia e Guillain-Barré.
Enquanto alguns especialistas calculam que 1% dos infectados por zika desenvolverão distúrbios neurológicos severos, outras estatísticas apontam uma proporção de 39% para a ocorrência de microcefalia.
Essa porcentagem vem dos atuais números produzidos por instituições do Brasil, onde foram registrados, entre 22 de outubro de 2015 e 12 de março de 2016, 6.480 casos suspeitos de microcefalia e outras malformações do sistema nervoso central.
Em cerca de 2,5 mil casos, segundo a OMS, o crânio dos bebês foi medido, levantando as suspeitas de que se trata da malformação congênita. Para que o distúrbio seja confirmado, faltam exames que comprovem que os bebês sofreram danos cerebrais.
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