Número de famílias que passam fome dobrou nos últimos oito meses, devido a estações de chuvas muito fracas que afetaram a produção de alimentos, alertou o UNICEF. Na zona rural, 2,8 milhões de pessoas vão precisar de assistência alimentar. Metade desse contingente é de crianças. Pela primeira vez, Programa Mundial de Alimentos manterá assistência durante todo o ano.

Agricultora de milho em Epworth, Harare, Zimbábue. Foto: Kate Holt / IRIN
A fome no Zimbábue atingiu seu pior nível em 15 anos. Estima-se que quase 33 mil crianças precisem urgentemente de tratamento para a malnutrição, considerada aguda e severa. Nos últimos oito meses, dobrou o número de famílias sem acesso adequado a comida. Em fevereiro desse ano, uma pesquisa revelou que 2,8 milhões de pessoas das regiões rurais vão precisar de assistência alimentar.
Essas informações foram divulgadas na terça-feira (15) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) que, para lidar com a crise na nação africana, fez um apelo à comunidade internacional por 21 milhões de dólares. Até o momento, apenas 430 mil foram angariados.
“As famílias na zona rural do Zimbábue estão aprisionadas numa luta pela sobrevivência após duas estações consecutivas de chuvas fracas, atribuídas ao fenômeno climático do El Niño”, afirmou o porta-voz da agência da ONU, Christophe Boulierac.
As baixas precipitações encolheram as colheitas e reduziram as reservas de alimentos, aumentando a fome, dizimando o gado e esgotando fontes de água. Cerca de 30% da população rural do país precisa de ajuda para suprir suas necessidades alimentares. Entre esse contingente, 1,4 milhão são crianças.
O cenário levou o governo do país a declarar “estado de desastre” e a solicitar 1,5 bilhão de dólares a doadores.
O UNICEF informou que, no Zimbábue, 2,1% das crianças com menos de cinco anos apresentam malnutrição aguda e severa. A maioria delas é de meninos e meninas entre um e dois anos de idade O índice está acima do limite de 2%, que indica a necessidade de uma resposta de emergência para países em crise.
Segundo Boulierac, nesta situação, os jovens também estão mais vulneráveis a riscos como casamento precoce, violência, trabalho infantil e doenças, devido à falta de água própria ao consumo.
Pela primeira vez, Programa Mundial de Alimentos manterá assistência durante todo o ano
O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) anunciou que – pela primeira vez – não suspenderá as operações de socorro para as pessoas vulneráveis no Zimbábue durante a primavera e o verão. A assistência de comida e financeira da agência continuará ao longo do ano.
Normalmente, em abril tem início o chamado “período de graça” no país, após meses difíceis antes da colheita, geralmente a partir de outubro a março. Neste ano, o período se transformou em um “tempo de carência”, com quase 3 milhões de pessoas passando fome, de acordo com o PMA.
Um incomum El Niño – muito mais forte – está promovendo seca em um período em que há normalmente chuvas na África Austral. Isto é particularmente perigoso na estação de crescimento, quando os pequenos agricultores dependem da agricultura de sequeiro.
“Muitas comunidades rurais estão presas à fome e isso deve continuar no próximo ano”, disse Eddie Rowe, diretor do PMA no Zimbábue.
A agência da ONU disse que vai fornecer alimentos e assistência financeira para cerca de 730 mil pessoas este mês. Operações deverão ser ampliadas para chegar a 2,2 milhões de pessoas nos primeiros meses, com o governo e os parceiros de desenvolvimento apoiando as iniciativas da ONU.
“Estamos trabalhando com o governo e os doadores para mobilizar a assistência aos mais vulneráveis, mas para chegar a todos os necessitados, dependemos da comunidade de doadores para continuar financiando nossas operações”, disse Rowe.
O sul e o leste do país devem ser particularmente atingidos em relação à colheita de milho do próximo mês, prevista para ser um “fracasso” por uma organização que monitora a situação no país. Além disso, o gado sofreu uma grande em meio à falta de acesso suficiente a água, reduzindo o rendimento das pessoas e a oferta de alimentos.